O yālad na forma hiphil prova que não há lacunas nas genealogias de Gênesis 5 e 11?


[Tentativa de fazer uma] ilustração da genealogia de Adão (Imagem de Salvador Daqui em NightCafé Studio - https://creator.nightcafe.studio)
[Tentativa de fazer uma] ilustração da genealogia de Adão (Imagem de Salvador Daqui em NightCafé Studio)


por Hugh Henry e Daniel J. Dyke
27 de março de 2018

Todas as tentativas de calcular uma data para a criação e o dilúvio de Noé baseiam-se numa suposição: Gênesis 5 e 11 contêm genealogias completas de pai e filho, sem lacunas. Esta suposição, por sua vez, baseia-se na suposição de que o verbo hebraico yālad implica uma relação pai-filho nestes capítulos.

Nós demonstramos em artigos anteriores que yālad, na verdade, representa apenas um relacionamento ancestral geral — ou menos. Os proponentes da ausência de lacunas, no entanto, observam que uma forma hiphil particular de yālad é usada em Gênesis 5 e 11 e citam esta forma específica como prova da ausência de lacunas. Por exemplo, J. Paul Tanner escreveu em uma publicação de 2015: “Das 170 vezes que uma forma hiphil do verbo [yālad] é usada em Gênesis, ela sempre é usada para dizer que um homem é o pai literal de um filho, e não apenas um ‘ancestral’”. [1] (Recentemente, Tanner modificou isso para uma afirmação de 96% dos 176 casos em todo o Antigo Testamento; [2] ele reconhece as exceções: Deuteronômio 4:25, 2 Reis 20:18, e Isaías 39:7. [3]), sendo as duas últimas passagens idênticas.

Mas há um problema com a sua afirmação: ela assume que todos os relacionamentos sem uma narrativa bíblica esclarecedora são pai-filho. Se, porém, todos os usos de yālad na forma hiphil na Bíblia são analisados, fica claro que a maioria deles carece de uma narrativa descritiva para esclarecer uma relação precisa; e muitas vezes os indivíduos nomeados aparecem apenas no versículo citado. Tais relações são “desconhecidas”; somente se uma narrativa bíblica esclarecer a relação ela poderá ser considerada “conhecida”. Aqueles que desejam usar estatísticas para inferir o significado de yālad na forma hiphil em Gênesis 5 e 11 devem desenvolver essas estatísticas baseadas apenas em relacionamentos conhecidos.

Em Gênesis, há aproximadamente 69 ocorrências de yālad na forma hiphil; em aproximadamente 45 delas a relação de descendência é desconhecida, todas de Gênesis 5 e 11: Gênesis 5:6–7, 9–10, 12–13, 15–16, 18–19, 21–22, 25–26; 11:10–25. Apenas por volta de 14 possuem uma narrativa que sugere a relação pai-filho. Oito instâncias são a relação pai e filho: Gênesis 5:3–4, 28, 30; 11:27b, 25:19. Em cinco casos, yālad na forma hiphil é usado para descendentes múltiplos: Gênesis 5:32; 6:10 (Noé); 11:26–27a (Terá); e 17:20 (Ismael). É significativo, contudo, que o primeiro descendente de Noé e de Terá que aparece na ordem de citação não seja o mais velho — o que significa que yālad na forma hiphil é impreciso. Outro exemplo se aplica a descendentes mais distantes: Gênesis 48:6 refere-se à descendência potencialmente de longo prazo de José (môledeth).

Na literatura mosaica além de Gênesis, há aproximadamente 5 exemplos de yālad na forma hiphil; em todos os casos, as relações de descendência são conhecidas, e uma é claramente a situação pai-filho (Números 26:58). Três se aplicam a descendentes mais distantes: Levítico 25:45 refere-se aos futuros descendentes de escravos; e Deuteronômio 4:25 e 28:41 aplicam-se aos futuros descendentes dos israelitas no Êxodo. Um deles é questionável: em Números 26:29, “Gileade” quase certamente significa pessoas que vivem na terra de Gileade — não uma pessoa. [4]

Em resumo, na literatura mosaica (incluindo Gênesis), 9 casos de yālad na forma hiphil são a relação pai-filho; 4 não são pai-filho; 1 é questionável; 5 estão confusos com vários nomes; e, em aproximadamente 45, as relações são desconhecidas.

O maior número de exemplos de yālad na forma hiphil ocorre na literatura não-mosaica. Nas seguintes passagens, as relações de descendência são desconhecidas: 1 Crônicas 1:34; 2:18, 22, 36–41, 44, 46; 4:2, 8, 11–12, 14; 7:32; 8:7–9, 11, 32, 36–37; 9:38, 42–43; Neemias 12:10–11. Onze outros casos de yālad na forma hiphil são figurativos, metafóricos ou instrutivos na terceira pessoa: Jó 38:28; Eclesiastes 5:14; 6:3; Isaías 45:10; 55:10; 59:4; 66:9; Jeremias 16:3; 29:6; Ezequiel 18:10, 14.
 
Analisamos as instâncias conhecidas restantes da seguinte forma:

1. Sete exemplos expressam, de fato, a relação pai-filho ou provavelmente são pai-filho:
  1. 1 Crônicas 1:34, Abraão → Isaque
  2. 1 Crônicas 2:20, Hur → Uri → Bezalel (Êxodo 17:10; 31:2; 35:30).
  3. 1 Crônicas 8:1, Benjamin a filhos; entretanto, existem discrepâncias entre os nomes em Gênesis 46:21 e 1 Crônicas 8:1–2, e isso é uma preocupação.
  4. 1 Crônicas 14:3 refere-se a David e seus filhos.
  5. 2 Crônicas 11:21; 13:21; e 24:3 são a relação pai-filhos, mas não fornecem informações genealógicas úteis; eles apenas afirmam que Roboão, Abias e Joás tiveram filhos.

2. Oito exemplos definitivamente têm lacunas ou usam yālad na forma hiphil para se referir a descendentes mais distantes:
  1. Rute 4:18–22 e 1 Crônicas 2:10–13 registra a genealogia de Davi com as lacunas identificadas.
  2. 2 Reis 20:18 e Isaías 39:7 é o caso de Ezequias, em que yālad na forma hiphil aplica-se claramente a descendentes distantes.
  3. 1 Crônicas 6:4–14 é a lista do sumo sacerdote desde o Êxodo até o exílio — com lacunas. [5]
  4. 1 Crônicas 8:33–34 (1 Crônicas 9:39–40), a genealogia do rei Saul, lista incorretamente seu tio Ner como seu avô (ver 1 Samuel 9:1; 14:50–51).
  5. Ezequiel 47:22 refere-se aos direitos de propriedade de longo prazo dos descendentes de estrangeiros residentes entre os judeus.

3. Um exemplo provavelmente não é a relação pai-filho:

  1. Juízes 11:1, Gileade → Jefté é quase certamente outro exemplo em que yālad na forma hiphil é usado para grupos de pessoas, significando um homem de Gileade.

É evidente que a grande maioria dos casos de yālad na forma hiphil na literatura não-mosaica são relações de descendência desconhecidas ou figurativas — e os exemplos conhecidos são aproximadamente divididos igualmente entre pai-filho e não pai-filho.

Um outro fato extraído da análise acima é que todos os exemplos de genealogias longas usando yālad na forma hiphil são casos de relação de descendência desconhecidas (Gênesis 5 e 11; 1 Crônicas 2:36–41; Neemias 12:10–11) ou apresentam lacunas (Rute 4:18–22; 1 Crônicas 2:10–13; 1 Crônicas 6:4–14). Isso sugere que longas genealogias podem ser ampliadas.

Com base no que precede, não é plausível utilizar dados estatísticos para afirmar que yālad na forma hiphil significa uniformemente um relacionamento pai-filho na Bíblia. Tanto na literatura mosaica quanto na não mosaica, essa é a situação com apenas aproximadamente metade dos casos. Esses dados estatísticos, portanto, não sugerem que as genealogias de Gênesis 5 e 11 estejam completas e sem lacunas. Pelo contrário, esses dados sugerem que provavelmente são lacunas.

Os leitores são convidados a revisar e comentar qualquer um ou todos esses exemplos. Apenas explicações superficiais sobre o que foi dito acima podem ser feitas neste breve documento, mas nosso e-book God of the Gaps (Deus das lacunas) inclui uma análise mais detalhada.

Notas de Fim

  1. J. Paul Tanner, “Old Testament Chronology and Its Implication for the Creation and Flood Accounts”, Bibliotheca Sacra 172 (janeiro–março 2015): 24–44, https://paultanner.org/English Docs/SpecialArt/OT Chron and Creation-Flood_P Tanner_BibSac 2015 Final.pdf.
  2. Daniel J. Dyke e Hugh Henry, “Biblical Genealogies Revisited: Further Evidence of Gaps”, Today’s New Reason to Believe (blog), Reasons to Believe, 18 de novembro de 2013, https://www.reasons.org/articles/biblical-genealogies-revisited-further-evidence-of-gap. {Publicado traduzido aqui no blog com o título ‘Genealogias bíblicas revisitadas: mais evidências de lacunas’.}
  3. J. Paul Tanner, comunicação privada.
  4. Gary Knoppers, 4. 1 Chronicles 1–9: A New Translation with Introduction and Commentary, (New York: Doubleday, 2004).
  5. Uma nota de rodapé de 1 Crônicas 6:4-15 na Bíblia de Estudo NVI cita quatro (ou seis) sumos sacerdotes conhecidos do Antigo Testamento que não são mencionados em 1 Crônicas 6: Joiada (2 Reis 12:2), Urias (2 Reis 16:10-16), possivelmente dois Azarias (2 Crônicas 26:17, 20; 31:10-31) e Eli (1 Samuel 1:9).


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